Um ano após morte de Herus, pai cobra justiça: ‘O PM que atirou continua livre e solto’

  • 10/06/2026
(Foto: Reprodução)
Vídeos mostram momento em que PM do Bope atira e mata Herus durante operação no Santo Amaro, na Zona Sul do Rio “A gente só gostaria de saber por que as leis não valem para policiais. Meu filho foi morto com tiros de fuzil, e o PM que fez isso continua livre e solto. Não dá para entender.” O desabafo é do auxiliar de escritório Fernando Guimarães, pai do office-boy Herus Guimarães Mendes da Conceição, de 23 anos, que há 1 ano foi assassinado por um policial militar do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Naquela madrugada de 7 de junho de 2025, a tropa de elite da Polícia Militar do RJ tinha subido o Morro Santo Amaro, na Zona Sul do Rio de Janeiro, para uma operação. Na hora, acontecia a tradicional festa junina da comunidade. No dia 4 de fevereiro, 8 meses após a morte do rapaz, a Justiça do RJ aceitou a denúncia do Ministério Público do Rio (MPRJ) e tornou réus por homicídio o 1º sargento Daniel Sousa da Silva e o 1º tenente Felippe Carlos de Souza Martins. Daniel foi o único policial a disparar no local. Ele atirou 13 vezes. O g1 não localizou a defesa deles. Até a última atualização desta reportagem, a Justiça ainda não tinha determinado se os militares iriam a júri popular. Também não havia previsão de data para julgamento. O governo do estado se comprometeu a pagar indenizações por danos morais aos familiares e uma pensão mensal ao filho de Herus, Theo, de 3 anos, até que ele complete 18 anos — ou 24, caso esteja matriculado em uma instituição de ensino superior. Herus Guimarães Mendes deixa um filho de apenas 3 anos Arquivo de família Sem desculpas Mesmo assim, Fernando conta que jamais recebeu um pedido de desculpas. “Sinceramente, o que podemos esperar do outro lado [a polícia]? Nada. Nós, que estamos deste lado, não temos segurança alguma. O policial que autorizou a incursão que matou meu filho foi flagrado meses antes dentro da casa de um morador na Maré. O mesmo PM.” O policial citado por Fernando é o tenente Felippe Martins, que comandou a operação do Bope que matou Herus. Felippe e outros 9 colegas foram denunciados pelo MPRJ por violação de domicílio, descumprimento de missão e recusa de obediência durante uma operação no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, em 10 de janeiro de 2025. De acordo com a denúncia do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp/MPRJ) — oferecida em abril deste ano —, no dia da ação, os agentes entraram clandestinamente em 13 residências na Nova Holanda, em alguns casos utilizando chave mestra ou arrombando a porta, sem autorização dos moradores nem ordem judicial. Segundo o MPRJ, parte dos policiais também deixou de cumprir a missão de incursão e estabilização para permanecer dentro dos imóveis, onde dormiram, usaram banheiros e até consumiram itens das geladeiras dos moradores. Na ocasião, a PM afirmou que instaurou um “procedimento apuratório cabível” e que Felippe foi afastado das funções. PM diz que atirou 13 vezes em festa junina Escada onde Herus foi morto Reprodução/TV Globo De acordo com a denúncia do MP no caso Herus, Daniel efetuou os disparos que causaram a morte do office-boy. Em depoimento, o sargento Daniel disse que foi o único de sua equipe a realizar disparos na ação. Ele afirmou que os 13 tiros foram uma resposta a disparos de traficantes. A manifestação do agente contrariou o primeiro posicionamento da PM, que afirmava que os policiais não dispararam naquela noite. “As imagens das câmeras operacionais portáteis demonstram que Herus não esboçou qualquer atitude agressiva e tentou se afastar para se proteger, estando de costas no momento em que foi atingido”, diz o MPRJ em nota à época. Já o tenente Felippe, comandante da equipe Alfa do Bope, foi denunciado sob suspeita de omissão penalmente relevante. Para o MPRJ, ele decidiu manter a operação mesmo após receber informações de que havia uma festa junina em andamento com muitos moradores no local, incluindo crianças. Felippe e Daniel são réus na 2ª Vara Criminal do RJ por homicídio qualificado por motivo fútil e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. A Justiça determinou diversas medidas cautelares, como: suspensão das atividades de policiamento externo; proibição de acesso a unidades militares diferentes daquela em que forem designados para trabalhar; proibição de manter qualquer tipo de contato — pessoalmente, por telefone, mensagens ou redes sociais — com testemunhas do processo e familiares da vítima entre outras. De subsecretário a comandante Coronel Aristheu de Góes Lopes foi lotado no comando do Bope Reprodução O coronel Aristheu de Goes Lopes, comandante do Bope à época da operação no Santo Amaro e chefe de Felippe e Daniel, chegou a ser exonerado, mas passou por vários batalhões ao longo dos últimos meses. Nesta segunda-feira (8), no dia seguinte ao aniversário da morte de Herus, o governador em exercício, Ricardo Couto, nomeou Aristheu como subsecretário-adjunto de Comando e Controle da PM. O ato foi assinado com efeitos retroativos a 26 de janeiro de 2026. Entretanto, o coronel não está mais na função. Atualmente, ele lidera o Comando de Policiamento Especializado (CPE), onde responde pelos batalhões de áreas turísticas, vias expressas e estádios do estado. Aristheu Lopes nunca foi investigado pela Corregedoria da PM na morte do office-boy.  Nomeação de Aristheu de Goes Lopes no Diário Oficial de segunda-feira (8) Reprodução Por nota, a Polícia Militar disse que “não há qualquer determinação judicial que impeça” Aristheu Lopes “de exercer a função policial”. Ainda de acordo com o comunicado, “a publicação em Diário Oficial tratou-se de um ato administrativo em função do ajuste retroativo de cargos e reestruturação das unidades da PMERJ.” A instituição disse também que “o inquérito policial militar sobre o caso Herus foi concluído e encaminhado ao Ministério Público Militar.” O g1 questionou o Governo do Estado sobre a nomeação. No entanto, não houve retorno. Pais de Herus no velório do filho Jefferson Monteiro/ TV Globo ‘Vida mais difícil’ Nesse 1 ano, o pai de Herus relata que a saúde da esposa piorou e que a vida ficou “mais difícil.”  “A situação do coração dela piorou. Ela tem o coração grande e os batimentos têm ficado abaixo do normal: chegaram a 40 por minuto e hoje estão em 33. A cirurgia é considerada o último recurso — um transplante, porque o coração dela está dilatado. Ela fica muito abatida, porque a vida ficou mais difícil sem o meu filho”, conta.  Herus Guimarães Mendes Reprodução

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/06/10/um-ano-morte-de-herus.ghtml


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