Tatiana Sampaio alega que pesquisa da polilaminina revisada por pares vai ser publicada, mas não dá detalhes

  • 03/06/2026
(Foto: Reprodução)
Tatiana Sampaio, cientista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em entrevista à Reuters 27 de março de 2026 REUTERS/Pilar Olivares A cientista Tatiana Sampaio afirmou à agência Reuters que um estudo revisado por pares sobre a polilaminina está prestes a ser publicado, mas não informou em qual revista científica nem quando os resultados serão divulgados. A declaração ocorre em meio ao crescente interesse pelo tratamento experimental para lesões na medula espinhal, que ainda passa por testes para comprovar sua segurança e eficácia em humanos. A polilaminina é uma proteína derivada da placenta que busca estimular a regeneração de nervos lesionados. O tratamento ganhou notoriedade no Brasil após resultados promissores em estudos com animais e a divulgação de um estudo preliminar (preprint) em 2024, promovido pela farmacêutica Cristália, que adquiriu a patente da tecnologia. O interesse público cresceu rapidamente. Pacientes de diferentes regiões e até de outros países passaram a buscar acesso ao medicamento experimental, enquanto dezenas de pessoas recorreram à Justiça para tentar obter autorização para o tratamento. A repercussão também transformou Sampaio em uma figura conhecida nacionalmente. Durante um desfile de Carnaval neste ano, o cantor João Gomes chegou a chamá-la de "a maior celebridade que temos aqui hoje". Polilaminina: por que o estudo não foi publicado por revistas científicas e quais os próximos passos da pesquisa Nova pesquisa pode ajudar quem perdeu movimentos Governo demonstra otimismo O governo federal acompanha o desenvolvimento da polilaminina com expectativa. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o medicamento foi o primeiro produto analisado pelo recém-criado Comitê de Inovação da Anvisa. "Se o estudo clínico apresentar bons resultados, pode ser ofertado o mais rápido possível à população", afirmou o ministro à Reuters. Para Tatiana Sampaio, o entusiasmo em torno da pesquisa também reflete o reconhecimento de uma descoberta desenvolvida no Brasil. Ela ressaltou, porém, que a polilaminina continua em avaliação para eventual aprovação regulatória. Polilaminina: o que se sabe sobre a proteína da UFRJ que pode recuperar movimentos após lesão na medula Especialistas pedem cautela Apesar do entusiasmo, pesquisadores e entidades científicas afirmam que ainda é cedo para concluir que o tratamento funciona. Marco Baptista, diretor científico da Fundação Christopher & Dana Reeve, classificou a pesquisa como inovadora e promissora, mas destacou que ela representa apenas uma entre diversas abordagens experimentais ainda em fase inicial de desenvolvimento. Segundo ele, é necessário confirmar tanto a segurança quanto a eficácia do tratamento antes de qualquer conclusão. A Academia Brasileira de Neurologia também defende cautela. O presidente da entidade, Delson José da Silva, afirmou que a comunidade científica deseja o sucesso da pesquisa, mas que ela precisa cumprir os critérios exigidos para validação científica. Resultados iniciais ainda geram debate Os primeiros testes em humanos envolveram oito pacientes com lesões completas na medula espinhal. Dois morreram em decorrência da gravidade dos ferimentos, enquanto os seis sobreviventes recuperaram algum grau de controle motor abaixo da área lesionada. Um deles, Bruno Drummond de Freitas, recuperou-se completamente e voltou a caminhar sem auxílio após dois anos. No entanto, especialistas observam que alguns pacientes com lesão cervical podem apresentar recuperação espontânea, o que reforça a necessidade de estudos controlados e revisados por pares para determinar o real impacto da polilaminina. Ensaio clínico de fase 1 está em andamento A Anvisa autorizou um ensaio clínico de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina em cinco pacientes com lesões agudas completas da medula espinhal. O estudo inclui pessoas entre 18 e 72 anos tratadas em até 72 horas após o trauma. Segundo a Cristália, que investiu mais de R$ 110 milhões no desenvolvimento do medicamento, a empresa também tem doado o tratamento para pacientes agudos após autorização da agência reguladora. Até o momento, 84 pacientes receberam autorização para uso compassivo da polilaminina, sendo 44 por decisão judicial e 40 por vias administrativas. Enquanto os estudos prosseguem, Tatiana Sampaio afirma permanecer focada na pesquisa e confiante no potencial do tratamento. "Tem algum mérito em não desistir", disse a cientista. Por que o estudo ainda não foi publicado por revistas científicas Em março deste ano, o g1 destacou que revistas científicas que avaliaram o estudo sobre a polilaminina apontaram dois problemas principais para recusar a publicação do texto: divergências sobre a taxa de recuperação de pacientes usada como referência no trabalho e a ausência de registro prévio do ensaio clínico em um banco internacional de pesquisas. Quando um estudo é submetido a uma revista especializada, ele passa pela chamada revisão por pares. Ou seja, é avaliado por pesquisadores e, quando aceito nesses periódicos, isso indica que o trabalho passou por uma avaliação técnica considerada um dos principais filtros de qualidade da ciência na pesquisa. Tatiana informou ao g1, à época, que ela havia tido três recusas de sua versão já revisadas: Nature Communications, uma outra revista do grupo Nature e o Journal of Neurosurgery. A pesquisadora disse que iria corrigir erros no pré-print e fazer uma nova revisão. Segundo Tatiana, os pontos que seriam corrigidos são: Erro em gráfico de paciente Na versão atual do pré-print, o participante 1 aparece com cerca de 400 dias de acompanhamento, apesar de o texto indicar que ele morreu cinco dias após o procedimento. Tatiana confirmou que os dados pertencem, na verdade, ao participante 2 e que houve um erro de digitação na figura. Mudança na forma como exame é mostrado Outro ponto que vinha sendo questionado por especialistas envolve o exame de eletromiografia usado em um dos pacientes para indicar possível regeneração após o tratamento. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que, em alguns dos casos descritos como sucesso, a eletromiografia não mostrou alterações claras. Segundo ela, a imagem estava “mal programada” e exibia dados brutos. Explicação sobre choque medular Outro ponto que vinha sendo debatido por especialistas era a possibilidade de que alguns pacientes pudessem estar em choque medular no momento da avaliação inicial. ➡️ O QUE É O CHOQUE MEDULAR? É uma fase temporária que pode ocorrer logo após uma lesão na medula espinhal, quando a pessoa perde os reflexos e a atividade nervosa abaixo do local do trauma. Esse estado temporário pode interferir em exames usados para classificar a gravidade da lesão, em que elas poderiam ser menos graves do que o visto pelos pesquisadores. Como essa condição não estava detalhada no pré-print original, pesquisadores apontavam que isso poderia ser um ponto cego na interpretação dos resultados. Na versão revisada do pré-print, Tatiana afirma que nenhum paciente estava em choque medular e que todos passaram por exames prévios para avaliar essa possibilidade. Segundo ela, não foi utilizado o procedimento considerado padrão-ouro para essa confirmação — que exige alguns dias de observação — porque a polilaminina precisa ser aplicada em até 72 horas após a lesão. ➡️ Apesar disso, o pré-print não cita quantos participantes foram avaliados e não incluídos na pesquisa. Esse é um ponto que vem sendo levantado por especialistas em pesquisa clínica. Em estudos clínicos, é importante explicar como os participantes foram escolhidos. Isso ajuda a evitar vieses, que é quando a forma de selecionar os pacientes pode influenciar os resultados. Polilaminina vem sendo estudada há mais de 20 anos pela UFRJ A polilaminina vem sendo estudada há mais de 20 anos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O composto é uma versão recriada em laboratório da laminina, proteína presente no desenvolvimento embrionário e que ajuda os neurônios a se conectarem. A expectativa é que, aplicada no ponto da lesão, ela estimule os nervos a criarem novas rotas e restabelecerem parte dos movimentos. Resultados em cães Um estudo publicado em agosto na revista Frontiers in Veterinary Science avaliou a polilaminina em seis cães paraplégicos, que não conseguiam andar mesmo após cirurgia e meses de fisioterapia. Alguns estavam sem se movimentar havia anos. Depois da aplicação da substância diretamente na medula, quatro dos animais conseguiram voltar a dar passos e melhorar a firmeza da marcha. Dois tiveram avanços mais discretos. Os efeitos foram acompanhados por seis meses. Não foram registrados efeitos colaterais graves: apenas um caso de diarreia foi relatado, sem ligação comprovada com o medicamento. Testes em voluntários Além dos cães, a polilaminina também já foi aplicada em pequenos grupos de pacientes brasileiros em caráter experimental, dentro de protocolos acadêmicos. Segundo os pesquisadores, alguns voluntários que haviam perdido completamente os movimentos abaixo da lesão recuperaram parte da mobilidade — algo considerado improvável sem intervenção. Houve relatos que variaram de pequenos movimentos a ganhos mais amplos, como controle de tronco e até passos com auxílio.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/06/03/tatiana-sampaio-alega-que-pesquisa-da-polilaminina-revisado-por-pares-vai-ser-publicado-mas-nao-da-detalhes.ghtml


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